Nascimento Marítimo

"Perguntou-nos como tinha corrido o parto, e onde estava a placenta. Explicámos ao pormenor o que tinha acontecido, que a placenta já estava a contar milhas no meio do oceano".

Viagem de Lobito para Luanda, a bordo de um ferry de transporte de passageiros, no ano de 1989.

A negra entrou a bordo, com um enorme barrigão de gravidez.

Já a navegar depois de cerca de seis horas de viagem, a meio caminho, começou a queixar-se de fortes dores, com aparentes sintomas de poder ocorrer o parto a qualquer momento.

O “rebentamento das águas” foi a confirmação definitiva do facto.

Foi chamado o enfermeiro, o velho Mangueira, que após ter conhecimento da situação se trancou no camarote, não o abrindo apesar da insistência dos outros tripulantes.

As hospedeiras de bordo, acompanharam a senhora até à enfermaria, tendo-a acomodado na marquesa.

Foi chamado o comandante, que ainda equacionou a arribada a um dos portos existentes na costa, mas durante a noite era um risco. Havia sempre o perigo de o navio ser confundido, com um navio hostil e ser alvejado pelas baterias de defesa da costa. Estávamos em período de guerra civil, não se podia facilitar, daí a viagem ser feita sempre a cerca de trinta milhas da costa.

A hospedeira mais velha, como mais experiente, já mãe de uma enorme prole, ficou a assistir, enquanto o comandante pediu para irem buscar o enfermeiro ao camarote, nem que fosse à força.

Foram dois elementos da protecção física, que viajava sempre quando havia passageiros, tentar arrancar o enfermeiro do camarote, onde estava entrincheirado. Não houve forma de o retirar do camarote, estava aterrorizado.

Em face da situação, com o nascimento a acontecer a qualquer momento, foi a vez de o comandante, aqui também, tomar uma posição de comando.

Mandou chamar o chefe de máquinas para o ajudar, em conjunto com duas hospedeiras e mais dois elementos da tripulação pediu para que fossem acordar o cozinheiro, pedindo-lhe para aquecer uns recipientes de água, até esta ferver e transportá-los depois para a enfermaria em conjunto com uns trapos também fervidos.

O material que havia na enfermaria, mesmo o esterilizado, oferecia pouca confiança. Foi tudo desinfectado com o pouco álcool que havia a bordo.

Quer os enfermeiros, quer outros tripulantes, apesar do apertado controle que existia, sempre que podiam subtraíam materiais e outros produtos da farmácia da enfermaria. Havia uma grande escassez em terra, de quase tudo, deste tipo de materiais ainda mais.

A formação que ambos tínhamos provinha apenas da formação escolar, nenhum de nós tinha assistido a um parto, nunca na vida. A única que tinha alguma experiência era a hospedeira mais velha, apenas dos próprios.

A situação precipitou-se, com o aparecimento da cabeça da criança, no meio das pernas da mãe. Não houve pânico, houve algum receio apenas. Eram um mar de dúvidas, puxamos com força, ou de uma forma moderada? E se há uma hemorragia? Esta quantidade de fluidos e sangue à mistura será normal?

Pelo comportamento da hospedeira, tudo parecia normal.

Felizmente que a criança, após sair um ombro, com apenas um ligeiro puxão da hospedeira, saiu disparado, tal qual uma bala sai do tudo de um canhão. Foi até necessário ampará-lo, senão teria acabado no chão da enfermaria.

Era um individuo do sexo masculino, de cor meio avermelhada mais para o moreno, mas aparentemente parecia branco.

Foi colocado sobre o ventre da mãe, como tínhamos visto fazer em filmes.

Punha-se agora o problema do corte do cordão umbilical. Sabíamos que tinha de ser estrangulado em dois pontos e depois fazer o corte a meio, agora a distância que devíamos deixar da barriga da criança, nenhum de nós tinha ideia.

Olhámos uns para os outros interrogativos. Nestas situações, mais vale uma má decisão que nenhuma. Optámos por deixar cerca cinco centímetros, mais valia sobrar que faltar.

Atámos o cordão, em dois pontos com linha que tinha sido fervida na cozinha, demos uns nós para ter a certeza que não se soltava e fizemos o corte no meio.

As hospedeiras trataram de lavar o bebé, e toda a zona onde se encontrava a mãe. Não imaginávamos que num parto, ficava aquela enorme quantidade de sujidade.

Fomos alertados pela hospedeira, que tínhamos de esperar que saísse o “saco”. Deduzimos que seria a placenta, como era a primeira vez, certezas não havia, existiam muitas dúvidas e bastante temor. No entanto, ninguém o demonstrava, parecia que todos eram experientes naquelas andanças.

Passado um bocado, começou a sair aquela massa viscosa e ensanguentada, com um aspecto repugnante e um cheiro forte e acre.

Colocou-se toda aquela massa dentro de um saco plástico, pedindo a um dos tripulantes para o atirar borda fora.

Passado umas horas, a criança tinha já mudado de cor, vendo-se então, sem margem de dúvidas que era um negro.

Na entrada de Luanda contactaram-se as autoridades para que tivessem auxílio médico à chegada para um recém-nascido e para a mãe.

Ao encostarmos ao cais, estava já lá uma ambulância, com um enfermeiro parteiro, para os transportar ao hospital.

Perguntou-nos como tinha corrido o parto, e onde estava a placenta. Explicámos ao pormenor o que tinha acontecido, que a placenta já estava a contar milhas no meio do oceano.

Sorriu, dizendo-nos: - Deviam tê-la guardado, para vermos se estava inteira, se faltava algum pedaço, mas já está. Vamos examiná-los no hospital, para ver se está tudo normal.

De notar a resistência e o poder de recuperação da mulher, que apenas meia dúzia de horas depois do parto, saiu pelo seu pé, com a criança ao colo, do navio para a ambulância.

Para nós, como marinheiros de primeira viagem naquelas andanças, foi uma experiência inolvidável, assistir ao despontar de uma vida, logo naquelas circunstâncias.

Ainda hoje nos perguntamos, como tivemos presença de espírito e serenidade para encarar uma situação para a qual não estávamos minimamente preparados.

Ao longo de vida haveríamos de enfrentar, outras, mas não envolviam vida humana.

Ainda hoje, perguntamos a nós mesmos: - E se a situação tivesse corrido mal?

 

 

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